Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga: cultura popular, história, moda

Rio São Francisco navegado por Ronaldo Fraga: cultura popular, história, moda

A exposição chega a São Paulo
iniciando sua itinerância pelo Brasil

1º de abril a 26 de junho de 2011

Pavilhão das Culturas Brasileiras
(próximo ao Museu Afro)
Parque do Ibirapuera
Entrada pelo portão 10
São Paulo / SP

Horário de entrada para visitação:
terça-feira a domingo, das 9h às 17h
(permitida permanência do local até as 18h)
Entrada gratuita

Origem

Desde a infância, minhas memórias são banhadas pelas águas do São Francisco.

Meu pai, que nem “barranqueiro” era, vivia pescando por aquelas “bandas”.  Sua volta era sempre uma festa, quando ele trazia surubins gigantes, lendas e casos do mágico universo ribeirinho.

Eram histórias e estórias, cultura, música, gente e bicho em cada conto trazido de lá. Meus sonhos eram povoados por caboclos d’água, uiaras, tutumarambás, serpentes do rio...

Eu já tinha a certeza de que o São Francisco é mais que um rio. Em 2008, satisfazendo antigo desejo, escolhi  o “Velho Chico” como objeto de pesquisa para a coleção de verão 2009. Seria a desculpa para ir de encontro a um universo que eu já conhecia das histórias e da literatura. PIRAPORA, CARRANCAS, GAIOLAS a VAPOR , BOM JESUS DA LAPA, PIRANHAS E LAJEDO, PETROLINA E JUAZEIRO... palavras que no meu imaginário chegavam como um afago, agora se tornavam mundo real. Por três meses viajei e me embebi das águas e da cultura do rio.

A coleção foi colorida com as cores barranqueiras, com os pontos e bordados característicos do universo às margens do rio, com as imagens das texturas das sacas de café e tábuas de madeira de lei que remendam os barcos e a alma ribeirinha...

Lançada a coleção, na sequência, a desfilamos no Chile e no México e o universo gráfico da mesma foi exposto no MOT, Museu de Arte Contemporânea de Tóquio. Outras coleções vieram, mas como dito pelos ribeirinhos “uma vez que se bebe da água do rio, o rio nunca mais sai da gente”.

Passados dois anos, realizamos agora outro grande projeto: transportar parte da magia do São Francisco para uma exposição itinerante que circulará em pelo menos doze cidades do Brasil.

É um diálogo entre a minha narrativa de moda e a rica cultura do rio que mais desperta afeto entre os brasileiros.  As “águas” do São Francisco não cabem em uma só coleção de moda, em um só livro e muito menos em uma única exposição, portanto essa não é uma mostra de acervo. São instalações costuradas entre a moda e a cultura ribeirinha.

Caminharemos por um convés imaginário, como o do vapor Benjamim Guimarães, observando o universo gráfico dos mercados populares, das carrancas e da arte popular; as histórias de amor de idas e vindas dos caixeiros viajantes; as cidades submersas pelo progresso desenvolvimentista... Tudo numa vasta ciranda amorosa em torno do “Velho Chico".

Ronaldo Fraga, outubro de 2010.

Exposição

A exposição foi inspirada na pesquisa que o estilista Ronaldo Fraga fez para a coleção desfilada no São Paulo Fashion Week em junho de 2008.

É uma exposição sobre a cultura popular presente às margens do “Velho Chico”, interpretada pelo olhar do Ronaldo, e representa o projeto número 1 da moda incentivada pela Lei Rouanet, ou seja, é um projeto pioneiro junto ao Ministério da Cultura e uma abertura de portas para a moda brasileira ser reconhecida como instrumento cultural. Pronac 089325.

A exposição é composta de 13 ambientes, verdadeiras instalações de arte contemporânea, integralmente produzidas por uma ONG, e conta com duas participações muito especiais:

  • a cantora Maria Bethânia declama o poema “Águas e Mágoas do rio São Francisco”, escrito por Carlos Drummond de Andrade em 1977, e a voz de Bethânia ecoa de 16 vestidos que compõem o ambiente “A Voz do Rio”, ou seja, são vestidos musicais nos quais as pessoas podem encostar e ouvir.
  • o ator Wagner Moura produziu e narra um documentário sobre a cidade de Rodelas (BA) onde ele foi criado e que foi inundada para dar lugar à barragem da hidrelétrica de Itaparica. É um dos ambientes mais emocionantes da exposição.

Com acesso gratuito, a exposição foi inaugurada em 19 de outubro de 2010, ficando em cartaz até 19 de dezembro de 2010, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, e registrou a presença de mais de 40.000 visitantes, incluindo 18.000 alunos de escolas públicas e privadas, o que a fez superar todos os recordes da história da visitação do principal centro cultural da cidade.

De caráter itinerante, a exposição está prevista para circular por cerca de mais 12 cidades brasileiras, começando por São Paulo.

Fotos

Imagens: Victor Schwaner e Nélio Rodrigues

Clipping

Patrocínio

Ficha técnica

Realização

Paralelo Projetos Especiais - Cibele Teixeira e Camila Valente

Concepção geral e curadoria

Ronaldo Fraga

Coordenação geral e produção

ODE - Isabela Rennó e Valéria Jardim

Projeto cenográfico

Clarissa Neves e Paulo Waisberg

Pesquisa textual e iconográfica

Mosaico Consultoria Cultural - Celia Corsino

Projeto gráfico

Designlândia

Projeto de Iluminação

Luiz Auricchio

Sonorização

Fusionaudio

Projeção

On Projeções

website

Cumplice.net

Ambiente “O Chico morre no mar”

Vídeo: Mil Meios - Direção: Marcelo Belém
Estampa madeira: executada pelos designers de estampa têxtil Rodrigo Baba e Virgínia Domingos - Sete Ceos Estamparia
Videos e fotos do mapa: Cinear - Projeto “Cinema no Rio São Francisco” - Inácio Ribeiro Neves, Fernando Lima, Cristina Maure, André Fossati

Ambiente “O Chico e o caixeiro viajante”

Videos: Cinear - Projeto “Cinema no Rio São Francisco” - Inácio Ribeiro Neves e Fernando Lima
Fotos: Marcel Gautherot / Acervo Instituto Moreira Salles

Ambiente “A voz do Chico”

Maria Bethânia em gravação especial para esta exposição de “Águas e Mágoas do Rio São Francisco” da obra "Discurso de Primavera e Algumas Sombras" (1977) de Carlos Drummond de Andrade. Acompanhada pelo maestro Jaime Alem

Ambiente “Cidades Submersas”

Produção especial em vídeo, com criação e direção por Wagner Moura e Sandra Delgado para esta exposição. Utilização de imagens dos filmes “Adeus Rodelas” de Aguinaldo Siri Azevedo (1989), Série Brasilianas, Documentário Baiano 9, e “O Sertão que virou mar”, co-produção IRDEB/CHESF com o apoio da TV Universitária de Pernambuco

Ambiente “O Rio tece e veste”

Vídeo: Letícia Capanema

Ambiente “De gota em gota se faz o mar”

Projeção interativa: Henrique Roscoe

Ambiente “Pescaria”

Vídeo: TV Conecta BH

Prestação de contas

EmConta - Ana Beatris da Silva

Agradecimento especial

Bené Fonteles

Agradecimentos

Ana Basbaum
Biscoito Fino
Bouquet Garni
EMUTUR
Fernanda Ribas
Instituto Cultural Flávio Gutierrez / Museu de Artes e Ofícios
ONG Missão Paz
Pedro Drummond de Andrade
Prefeitura de Belo Horizonte / Belotur
Roman Stulbach

Contato

grupos

Há uma programação especial para grupos de visitantes. Escolas públicas e privadas, empresas, ONGs, universidades e outros podem montar grupos que serão recebidos para visitas guiadas.

Mande uma mensagem pelo formulário ao lado. Uma pessoa de nossa equipe entrará em contato.

mande suas impressões e emoções

  • Aguarde

    enviando...

Mensagem enviada.Obrigado!

Mais um pouco

Só navega em suas águas verdadeiras águas quem tiver no sonho um barco de plenitudes e na proa o céu do imaginário.

Povo d'água

Há um linguajar de gente e água, que viceja dentro da nossa humanidade, assuntando um rio que está sempre na memória afetiva, quando por ele se fez travessia na alma dos barcos e no coração dos seres.

Por isso, a paixão pelo Rio São Francisco, quando ainda adolescente, senti no alvoroço da madrugada. Viajávamos num ônibus entre Fortaleza e São Paulo, e era a hora de atravessarmos a ponte que ligava Petrolina a Juazeiro. Todos acordamos para alumbrar-nos com a largueza do Velho Chico e admirarmos, mesmo no escuro, suas profundezas.

Esse o primeiro encontro e encanto com o amante: um rio com o qual já fiz amor tantas vezes, da nascente à foz, e sempre com o mesmo caudaloso espanto e uma reverência como a um ser mítico.

Mas não é só das águas e margens, da fauna e da flora, que se quer aprender a amá-lo, porque o rio também está prenhe de gente bonita e generosa. Assim me transporto para a cidade de São Romão em Minas Gerais, que, preterida pelo “progresso” de Pirapora e São Francisco, entre elas ficou meio esquecida, quando o rio já não era mais a estrada fluvial para os vapores apitando o cio do movimento constante de passageiros e cargas. São Romão, para não ser abandonada pela crueza do tempo, fez de sua gente um símbolo de resistência, por meio de sua força cultural e espiritual. Ela está emanando firme no batuque de Dona Maria com seus parentes e compadres em circularidade de pura energia, no encontro de negros e índios misturados nas encenações, ao mesmo tempo teatrais e musicais, na grande plasticidade dos “caboclinhos”, nos violeiros devotos dos reisados, conservando ainda uma singela pureza de rezar ajoelhado antes de tocar para o Divino.

Essas e tantas outras originalidades contagiantes e singulares muito emocionam, por envolver a alegria com uma carga telúrica, para que essa gente não seja esmagada pelo anonimato, pela falta de assistência básica. E, também, de isso não ser perene como os “poderosos” querem: que o rio seja a cada dia com menos flor, humanos e água.

A gente do Rio São Francisco é como ele, água que deseja transparências, que evoca lutas por dignidade, que ensina o fabulário fértil do imaginário popular, construindo e destruindo mitos, que delira no seu trabalho de adaptar-se a tudo que é sonho dos barrancos e dos barranqueiros, que transcende os limites das margens e voa no espaço dos pássaros sem fronteiras. Tudo somente por mera vontade de ser livre ao migrar na vocação de voo e larga poesia.

E é sobre essa poética de existir à margem, que eu quero fabular: a vivência árdua de sua gente, resistindo ao amassar o barro e criando do invisível; a permanência dos eternos ritos ao dançarem para o gosto do movimento ágil e prazeroso; a impermanência ao fazerem instrumentos de qualquer matéria para dar sabor aos ritmos; a imanência no devocional dos cantos religiosos, religando a terra e o céu para a transcendência do humano; a sapiência no trato com a medicina e a culinária caseira; a consciência de volume e cor nas habitações e indumentárias coloridas para celebrações e festas. Em tudo está o desejo ancestral que vai refazendo as tradições, ao criar também inventivas estratégias de sobrevivência. Poucos os povos que podem se dar o luxo de deixar por herança tão imenso cabedal a uma nação.

É isso que faz o povo desse rio, tão suavemente plural e místico, e, ao mesmo tempo, fortemente mítico e singular na construção de uma identidade, que só o povo ribeirinho pode conter em suas próprias margens. Só chegando na beira das conversas dessa gente, é que podemos compreender a vastidão de seus sonhos e realidades, ambos casados com “causos” e lendas e sem esquecer as sutilezas espertas de caboclo que vão e vêm nas águas barrentas, já bastantes sujas e muito menos piscosas.

É preciso ir às profundezas que nos inspira o rio e aspira essa sua gente para aprender com a mística crua e transcendente desse povo tão sertanejo à beira d’água e, ao mesmo tempo e em grande parte, parte da caatinga que quase avança voraz sobre a soberania de suas águas. Mas ele mantém sempre a tradição hospitaleira da generosidade e a disposição alegre e imediata do serviço a quem precise da solidariedade sincera. E tudo isso com uma criatividade absoluta, que parece vir do quase nada da matéria e repartir-se numa arte que resiste somente para ser utilizada e amada pelo que em nós existe de mais raro e mais sensível.

Só navega em suas águas verdadeiras águas quem tiver no sonho um barco de plenitudes e na proa o céu do imaginário.

Tudo brota, como se do artesanato fino das nascentes do Velho Chico fossem aflorando afluentes, numa artimanha de tantas artesanías naturais, mas todas a caminho de um mar de soluções, amplitudes e técnicas jamais sonhadas por qualquer civilização ribeirinha, que não queira algo além da arquitetura da simplicidade. Ele, franciscano e tão humilde, e aquático, apenas deseja, apesar de todas as adversidades, ser a gloriosa afirmação do humanismo: vasta, bela e cheia, como a Vida triunfando sobre a vazante da morte.

Por isso, chegar em Barra, onde o Rio São Francisco é baiano, é mais do que admirar a entrada de outro rio, afluente na beleza já cantada da cidade de casarões, figurões e folclores. Os seus tantos artesãos glorificam a gestualidade farta do barroco com a singeleza do que é mais popular. O excesso se casa com o essencial em simples cerimônias entre anjos e santos e outros personagens do farto imaginário nordestino. Ali, no confronto quase impossível, nasce uma arte que de muito orgulho encheria o coração de qualquer cidade, conferindo legitimidade, identidade e cidadania a seu povo, por meio do ofício criativo. Água e barro do rio doam e amoldam a fome de autoestima. Se os governantes compreendessem o que significa fazer brotar da terra uma poética utilitária da beleza e da funcionalidade para apreciação do sensível e busca da harmonia entre os humanos, não poderiam jamais exibir a ambição. E nada mais poderia ser pobreza no meio de tanta carência e solidão.

E é assim que da madeira, dos metais, do pano e de tantos outros materiais, que o povo são-franciscano vai tecendo em gestos, cantos e ritmos tão diversos as suas aspirações e inspirações mais profundas, que não só nos engrandecem a alma: tudo isso também nos renova a mente e aponta caminhos alternativos de vivência no meio dessa peleja do povo para tornar os roçados da vida mais suportáveis e férteis.

Bené Fonteles
artista plástico, compositor, coordenador do movimento Artistas pela Natureza e colaborador do projeto